REELABORA플O DO OLHAR: A INSTRUMENTA플O E FORMA플O DO COMUNICADOR NA COBERTURA DAS DIFERENTES REALIDADES AFRICANAS E DO SEGMENTO AFRO-DESCENDENTE BRASILEIRO, A PARTIR DO JORNALISMO CIENT�FICO E JORNALISMO ESPECIALIZADO.

 

 

RICARDO ALEXINO FERREIRA

   A presente comunica豫o � resultado das pesquisas desenvolvidas pelo autor nos �ltimos anos, envolvendo a disserta豫o A representa豫o do negro em jornais no centen�rio da aboli豫o da escravatura no Brasil, de 1993, e a tese Olhares negros: estudo da percep豫o cr�tica de afro-descendentes sobre a imprensa e outros meios de comunica豫o,� 2001, defendidas na Escola de Comunica寤es e Artes da Universidade de S�o Paulo (USP). A tese 밢lhares negros� foi finalista no pr�mio Intercom 2002. 

O autor Ricardo Alexino Ferreira � jornalista, doutor em Ci�ncias da Comunica豫o pela Escola de Comunica寤es e Artes da Universidade de S�o Paulo/USP (Brasil); professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunica豫o da Universidade Estadual Paulista/Unesp (em Bauru, S�o Paulo, Brasil), ministrando as disciplinas Comunica豫o Cient�fica (no Programa de P�s-Gradua豫o em Comunica豫o) e Jornalismo Especializado (no curso de Gradua豫o em Comunica豫o Social, habilita豫o Jornalismo). � tamb�m diretor e apresentador do programa jornal�stico de entrevistas, voltado para a divulga豫o cient�fica, Unesp-Ci�ncia, veiculado pela R�dio Unesp-FM (105,7 Mhz, Bauru, SP e www.radio.unesp.br)� e colunista da coluna M�dias, no site www.tvtem.com.br, da TVTem.com (Rede Globo de Televis�o, de Bauru). Coordena o Grupo de Pesquisa Comunica豫o Cient�fica e Especializada (cadastrado no CNPq e certificado pela Unesp). Contato: alexino@uol.com.br �ou alexino@faac.unesp.br

 

Resumo

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A partir da d�cada de 90, a imprensa se depara com os in�meros conflitos �tnicos que eclodem em todo o mundo. Entre o politicamente correto e o estere�tipo, jornalistas� se v�em perdidos na cobertura jornal�stica do segmento afro-brasileiro e das diferentes realidades africanas. A proposta deste trabalho � mostrar como o Jornalismo Cient�fico e o Jornalismo Especializado podem instrumentalizar e formar o profissional de imprensa na cobertura dos fen�menos sociais, culturais, pol�ticos e econ�micos dos segmentos afro-descendentes brasileiros e africanos.

 

Introdu豫o

 

O discurso racial brasileiro, envolvendo a quest�o do negro, � retomado de maneira diferenciada na �ltima d�cada e tem como gancho os confrontos �tnicos que se intensificaram em todo o mundo com o fim da Guerra Fria, principalmente no continente europeu. A quest�o de etnia e ra�a passa a ser a pauta do dia nos mais diferentes notici�rios. Esse fen�meno acabou por levantar dois elementos importantes.

O primeiro � a forma e o conte�do destas not�cias que quase sempre s�o captadas e passam pelo filtro das ag�ncias de not�cias, que muitas vezes est�o sediadas em pa�ses que at� patrocinam tais conflitos.[1]

Em outro momento, percebe-se que, ao cobrir conflitos �tnicos no continente europeu ocidental, as ag�ncias de not�cias passam aos ve�culos de Comunica豫o abordagens diferentes daquelas elaboradas sobre os젨 conflitos em outros continentes. O conflito europeu � contextualizado historicamente e ocupa consider�vel espa�o nos meios de comunica豫o. No entanto, para os conflitos envolvendo os n�o-europeus (Oriente M�dio, 햒rica, Am�rica Latina e 햟ia) o tratamento � outro, bem como o destaque dado. Geralmente, as refer�ncias hist�ricas aos conflitos n�o-europeus s�o escassas e os efeitos dos conflitos minimizados, beirando muitas vezes o estere�tipo, em que adjetivos como 뱑adicais�, 뱕iolentos� e outros s�o largamente difundidos.� No caso dos conflitos �tnicos na 햒rica, o tratamento � o mais diferenciado de todos, pois atribui a estes conflitos caracter�sticas tribais.

젨젨젨젨젨� Mesmo com diferen�as de abordagens, esta movimenta豫o internacional acabou influenciando o discurso nacional sobre a situa豫o �tnica no Brasil. Duas abordagens s�o percebidas no que tange a este tema. Na primeira, desprovida de cr�tica e acreditando ser o Brasil um pa�s que vive uma democracia racial plena, utiliza-se destes conflitos internacionais para alardear o quanto o brasileiro � pac�fico e democr�tico. Esta corrente � a da nega豫o das diferen�as �tnicas e� da nega豫o da exclus�o social a partir 밺a cor�. Por outro lado, os conflitos �tnicos internacionais t�m provocado discuss�es em camadas mais bem-informadas da popula豫o sobre as diferen�as �tnicas existentes no Brasil e o quanto isso acaba incidindo sobre a qualidade de vida e a distribui豫o de renda. Ou seja, neste caso a� desigualdade social n�o � vista apenas pela �tica da m� distribui豫o de renda e imobilidade de grupos na pir�mide social, mas a partir da intensa rela豫o que tem entre� exclus�o social e popula豫o negra, tornando-se poss�vel identificar que a maioria dos afro-descendentes est� na linha de sobreviv�ncia da Economia brasileira.

Apesar de o� assunto ter sido retomado, nestes �ltimos anos, o tema envolvendo conflitos� �tnicos no Brasil n�o � algo recente. Em 1988, durante os trabalhos da Constituinte, j� se verificava a necessidade de se elaborar uma nova Constitui豫o brasileira que fosse intolerante com atos racistas e discriminat�rios. Reconhecia-se, assim, oficialmente, que o Brasil n�o estava imerso em nenhuma democracia racial e se tornava necess�rio criar mecanismos eficientes de coibi豫o de atos racistas. A pr�pria imprensa cria 밿ndexes�,� via manuais de reda豫o, alertando sobre a forma e o conte�do da abordagem dos grupos minorizados[2]. 젨젨젨젨젨�

젨젨젨젨젨� Muitas vezes, o discurso nacional sobre a quest�o �tnica teve como ponto de partida press�es internacionais que obrigavam o Brasil a se posicionar� sobre os mais diferentes confrontos, como foi o caso da luta antiapartheid� na 햒rica do Sul, em 1988, e, uma d�cada depois, com a quest�o da independ�ncia e autodetermina豫o do Timor Leste. Neste �ltimo caso, o ent�o presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso foi pressionado pelo governo portugu�s, em 1999, para se posicionar de maneira mais efetiva sobre o massacre contra os timorenses promovido pelo governo indon�sio. A cobran�a do governo portugu�s se calcava� no fato de� Timor Leste ser um territ�rio-irm�o do Brasil, n�o s� pelo aspecto do idioma (a l�ngua falada no Timor Leste � o portugu�s), como tamb�m pelos aspectos socioculturais e� religiosos. Somente nesta situa豫o � que o Brasil rompeu o sil�ncio e se mobilizou e enviou tropas, que se uniram �s For�as de Paz da ONU, para garantir a autodetermina豫o daquele povo.

젨젨젨젨젨� Em muitos momentos, os confrontos �tnicos internacionais serviram para que discursos pol�ticos exaltassem a democracia racial brasileira contrapondo-a aos conflitos que se desenhavam em outros pa�ses. Estes argumentos oportunistas, no entanto, eram imediatamente pulverizados por organiza寤es de direitos humanos e movimentos populares organizados, que expunham categoricamente a situa豫o dos grupos minorizados no Brasil.

 

1.� Contextualiza豫o hist�rica: � Conflitos nos anos 90� -� a guerra das etnias

 

젨젨젨젨젨� O mundo contempor�neo� (principalmente na d�cada de 90) tem젨 sido marcado por diversos conflitos nacionalistas, �tnicos e religiosos, at� ent�o ofuscados por quase quatro d�cadas de guerra fria. Estes conflitos se intensificaram na d�cada de 90 com a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, e o enfraquecimento dos pa�ses do ent�o bloco sovi�tico, atolados em crises econ�micas.

A bipolariza豫o� do mundo p�s-Segunda Guerra Mundial entre EUA e URSS aos poucos ofusca (mas n�o elimina) os conflitos �tnicos e separatistas de muitos pa�ses, principalmente na Europa.

젨젨젨젨젨� Ap�s a Segunda Guerra Mundial, a hegemonia mundial dos Estados Unidos e da URSS leva o nacionalismo a "adormecer" em muitas na寤es, principalmente na Europa.� Entender o nacionalismo requer uma reflex�o profunda, uma vez que envolve complexidades.� Segundo Anthony Smith, professor de Sociologia na Universidade de Londres e na London School of Economics, o nacionalismo � um movimento ideol�gico para atingir e conservar a autonomia, a unidade e a identidade em nome de uma popula豫o em que alguns dos seus membros consideram constituir uma "na豫o" real ou potencial.� (Smith: 1991: 97)

젨젨젨젨젨� N�o se pode afirmar que os conflitos entre brancos e negros no Brasil tenham a mesma dimens�o dos conflitos �tnicos internacionais. Por ser um pa�s marcadamente mesti�o, o separatismo e os confrontos diretos se tornam mais dilu�dos, por�m n�o menos graves. Apesar disso, � poss�vel observar na realidade brasileira a conforma豫o, ainda embrion�ria, de conflitos �tnicos que podem insurgir de forma mais intensa no futuro. Este tipo de conforma豫o come�a a ser percebido pelo isolamento e confinamento da popula豫o negra a alguns espa�os (tanto no �mbito f�sico como social). Na conforma豫o territorial, a maioria dos negros brasileiros est� confinada nas favelas, corti�os ou periferias das grandes cidades. Ao sair deste espa�o, esta popula豫o negra � subjugada pelas for�as auxiliares do governo (Pol�cia Militar) ou por seguran�as particulares, contratados por empresas ou pessoas f�sicas, que quase sempre a tomam por 뱈arginal� e como uma amea�a natural ao patrim�nio, � vida e � manuten豫o do status quo das classes economicamente dominantes ou, at� mesmo, da classe m�dia (que introjeta os valores dos grupos dominantes). Quando esta maioria negra n�o � subjugada por estas for�as militares ou de seguran�a privada, � discriminada por outros elementos sociais, que exercem controle de acesso de pessoas (como porteiros, selecionadores de vagas de empregos e outros profissionais), que dificultam o seu acesso a pr�dios, empregos, enfim, ao pleno exerc�cio da cidadania.

�No �mbito social, a desigualdade de oportunidades entre brancos e negros tem adquirido visibilidade atrav�s de pesquisas divulgadas tanto por �rg�os oficiais, como a Funda豫o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat�stica (IBGE), como por entidades n�o-governamentais ou institutos de pesquisas ligados �s Universidades. Este � o caso do Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, que � formado por entidades representativas dos trabalhadores e desenvolveu estudo alertando que 50% da popula豫o desempregada em cinco capitais e Distrito Federal � composta por negros.� (Inspir: 1999: 117)

No �mbito governamental, os dados tamb�m s�o aterradores.� 밅onforme os �ltimos dados do Instituto de Pesquisa Econ�mica Aplicada (Ipea), �rg�o do Minist�rio do Planejamento, estima-se que os negros brasileiros ocupam apenas 1% dos postos estrat�gicos do mercado de trabalho. A mesma pesquisa revela que, entre dois profissionais igualmente qualificados, o branco tem 30% mais chances de conseguir a ocupa豫o do que o negro. Em universidades p�blicas a presen�a do negro � quase �nfima. Para se ter uma id�ia, a Universidade de S�o Paulo, considerada a mais importante da Am�rica Latina em ensino e pesquisa, possui 50 mil alunos, mas apenas 2% s�o alunos negros brasileiros.� � (Ferreira: outubro de 2000: 8)

젨젨젨젨젨� Estes dados s� fazem entender que o Brasil � um pa�s que possui acentuada discrep�ncia social e utiliza a cor da pele para intensificar as diferen�as sociais, uma vez que a maioria da popula豫o negra se encontra nas camadas menos privilegiadas e arcando com o �nus da mis�ria social.

젨젨젨젨젨� A discrimina豫o do negro, no entanto, n�o est� apenas relacionada � sua situa豫o econ�mica desfavorecida, que marca a maioria da popula豫o afro-descendente. Mesmo quando ascende socialmente, � poss�vel observar uma acentua豫o da discrimina豫o , uma vez que este negro saiu do lugar historicamente reservado para ele.

 

2. A forma豫o e especializa豫o de jornalistas e outros comunicadores na abordagem de segmentos minorizados

 

 

젨젨젨젨젨� Com o t�rmino da Guerra Fria, conforme exposto anteriormente, os conflitos �tnicos, de g�neros e de inclus�o social retomaram dimens�es importantes. No Brasil, o fen�meno tamb�m pode ser observado, principalmente no final dos anos 80.

젨젨젨젨젨� Segmentos como o de afro-descendentes, de homossexuais, de idosos, de crian�as e adolescentes e outros precipitaram-se, enquanto informa豫o, nas pautas dos jornais e nas editorias, obrigando os profissionais de imprensa a uma mudan�a de postura.

젨젨젨젨젨� No, entanto, a complexidade na abordagem destes segmentos significou um grande desafio para os profissionais de Comunica豫o. A partir desta realidade, resolvi inserir no programa da disciplina� Jornalismo Especializado tem�ticas envolvendo os segmentos minorizados. A experi�ncia vem sendo realizada junto ao curso de Comunica豫o Social (habilita豫o Jornalismo) da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunica豫o da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru, em S�o Paulo.

젨젨젨젨젨� O programa da disciplina � desenvolvido junto alunos do pen�ltimo termo do curso (7� termo), em Jornalismo Especializado II. A estrutura da disciplina envolve o conhecimento e o entendimento dos conflitos no Oriente M�dio, com �nfase em grupos �tnicos desfavorecidos enquanto not�cia pelas Ag�ncias Noticiosas internacionais; a realidade de afro-descendentes no Brasil com abordagens social, pol�tica, econ�mica, hist�rica, cultural, dentre outras; a quest�o homossexual; a quest�o do idosos; a quest�o da crian�a e do adolescente; a quest�o das mulheres; a quest�o dos portadores de necessidades especiais.

젨젨젨젨젨� Todos esses segmentos s�o abordados na disciplina, em um vi�s conceitual e � luz da legisla豫o. S�o estudados os termos mais apropriados; a constru豫o ideol�gica do preconceito, da discrimina豫o e do racismo e os diferentes estere�tipos.

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3. Os estudos do negro ou afro-brasileiro e a Comunica豫o

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Conforme pude constatar durante a elabora豫o de minha pesquisa de Mestrado (Ferreira: 1993: 31), estudos sobre o negro e a sua condi豫o de vida, a partir da representa豫o dele nos meios de comunica豫o social -� a m�dia eletr�nica (r�dio, televis�o), a m�dia imprensa (jornais e revistas), a m�dia digital (internet) a literatura (ficcional, documental e cient�fica) e as artes expressivas (m�sica, teatro etc.) - n�o s�o recentes.

젨젨젨젨젨� No s�culo passado, o negro j� esteve nos relatos de viajantes estrangeiros que vieram ao Brasil como Jean Baptiste Debret (Debret: 1949) e Saint-Hilaire (Saint-Hilaire: 1953).

젨젨젨젨젨� Gilberto Freyre, um dos primeiros pesquisadores brasileiros a descobrir a import�ncia informativo-documental da imprensa, conseguiu reconstruir a representa豫o do negro na sociedade brasileira no s�culo XIX atrav�s da an�lise dos an�ncios de jornais. (Freyre: 1979)

젨젨젨젨젨� Florestan Fernandes, em Integra豫o do negro � sociedade de classes, usou como fontes de informa寤es cole寤es de peri�dicos dos fins do s�culo passado, acreditando ser poss�vel, desse modo, acompanhar alguns assuntos pol�ticos das camadas dominantes. (Fernandes: 1965)

젨젨젨젨젨� Roger Bastide, em Estere�tipos de negros atrav�s da literatura brasileira, analisou a produ豫o liter�ria do s�culo XIX, detectando os estere�tipos raciais na sociedade contempor�nea. "Para este per�odo talvez o estudo dos jornais seja mais importante do que o dos livros, como express�o de sentimentos coletivos", afirma. (Bastide: 1953: 27)

젨젨젨젨젨� Borges Pereira, no final da d�cada de 60, j� havia tecido uma an�lise da presen�a do negro na estrutura radiof�nica paulista. Com esse trabalho - o primeiro que segue uma linha metodol�gica do estudo do negro em ve�culo de comunica豫o eletr�nico -, Borges Pereira, estudando o negro na estrutura radiof�nica, discute as posi寤es e pap�is que esse segmento ocupa na estrutura social. (Pereira, 1967)

젨젨젨젨젨� Nos anos 70, Solange Couceiro desenvolve estudo do negro na televis�o paulista. Em sua obra, Couceiro isola o per�odo final dos anos 60 e o come�o da d�cada de 70. Atrav�s de levantamentos quantitativo e qualitativo, ela faz an�lise dos profissionais da televis�o paulista e do conte�do das programa寤es das emissoras (programas de audit�rio e de entretenimento popular). Esse trabalho, al�m de registrar e documentar os primeiros passos da televis�o, retoma a metodologia de Borges Pereira e desenvolve um m�todo de estudo do negro atrav�s da an�lise centrada na televis�o.� (Couceiro, 1983).

젨젨젨젨젨� Lilia Schwarcz, em levantamento dos peri�dicos do final do s�culo passado, conseguiu tra�ar um perfil do negro e a sua representa豫o a partir do discurso das classes dominantes do sistema escravocrata. Assim, no s�culo passado, segundo a autora,tem-se: o negro inferior dos editoriais cient�ficos; o negro degenerado e n�o civilizado das not�cias; o negro fuj�o e marcado dos an�ncios de fuga; o negro desordeiro das ocorr�ncias policiais; o negro alugado dos classificados; o negro fiel e dependente de seu senhor; e o negro feiticeiro dos contos de suspense. (Schwarcz, 1987: 99).

젨젨젨젨젨� Na cr�tica liter�ria, Te�filo de Queiroz J�nior analisa a literatura brasileira de fic豫o enquanto instrumento que propaga imagens arcaicas, arcaizantes, deformadas da mulher negra. (Queiroz J�nior, 1982).

젨젨젨젨젨� No teatro, o trabalho de Miriam Garcia Mendes faz um levantamento das primeiras pe�as de teatro no Brasil at� os anos 80 e os pap�is desenvolvidos por atores negros. (Mendes, 1982)

젨젨젨젨젨� Na literatura cient�fica, Solange Couceiro analisa o discurso de Nina Rodrigues, m�dico-legista que defendia a inferioridade racial negra atrav�s de explica寤es biol�gicas, logo ap�s a aboli豫o da escravatura. Esse trabalho � importante referencial para se entender as origens dos estere�tipos sobre os negros, vigentes at� hoje, e o comportamento dos meios de comunica豫o social - principalmente jornais que j�� naquela �poca davam grande destaque para as mat�rias jornal�sticas e artigos calcados na ci�ncia positivista. (Couceiro, 1984)

젨젨젨젨젨� Na an�lise do discurso do jornalismo, Aparecida Baccega e Solange Couceiro estudam o modo que a imprensa brasileira ainda usa estere�tipos em not�cias sobre o negro. Nesse trabalho, as pesquisadoras verificaram a cobertura dada pela imprensa ao time de futebol africano, de Camar�es, durante a Copa do Mundo, em 1990. Elas constataram que o time e os jogadores africanos eram citados como sendo o s�mbolo animalesco de coragem e garra ou colocados como guerreiros tribais, numa alus�o a uma 햒rica selvagem, primitiva e guerreira. (Baccega e Couceiro: 1992)

젨젨젨젨젨� Essa gama de trabalhos consolidou uma linha de pesquisa nas mais diferentes �reas do conhecimento, que trata de meios de comunica豫o social e rela寤es raciais, mais precisamente a an�lise da produ豫o dos ve�culos de comunica豫o sobre o negro.

젨젨젨젨젨� Em 1993, defendi a disserta豫o de Mestrado A representa豫o do negro em jornais no centen�rio da aboli豫o da escravatura no Brasil, que visava analisar o conte�do de mat�rias jornal�sticas que tivessem como enfoque o negro. (Ferreira, 1993)

젨젨젨젨젨� Outro trabalho que analisa o negro na Comunica豫o � o de Joel Zito Ara�jo, A nega豫o do Brasil: o negro na telenovela brasileira, que vai fazer uma abordagem da representa豫o do negro em telenovelas brasileiras. (Ara�jo, 2000)

젨젨젨젨젨� A produ豫o jornal�stica do negro, aquela que � elaborada por ele e voltada para outros negros, tamb�m j� foi motivo de an�lise. Em A imprensa negra paulista, Miriam Nicolau Ferrara resgata a origem dos movimentos negros organizados e o decl�nio deles, abordando o per�odo que vai de 1915 a 1963. Nesse livro, a autora analisa a representa豫o do negro formulada por ele mesmo em seus pr�prios peri�dicos. (Ferrara, 1986)

젨젨젨젨젨� Nos trabalhos de Florestan Fernandes, o estudo da imprensa negra possibilitou analisar a fun豫o socializadora que esses tipos de jornais tinham. Segundo ele, a imprensa negra condensou e difundiu avalia寤es inconformistas sobre a realidade racial brasileira; contribuiu para transpor o consenso mec�nico, fundado na identidade das frustra寤es, numa solidariedade consciente e org�nica.� (Fernandes, 1965) . Roger Bastide tamb�m procurou, atrav�s da an�lise da imprensa negra, discernir a mentalidade de uma ra�a. (Bastide, 1953).

 

Considera寤es finais

 

젨젨젨젨젨� Os conflitos �tnicos que t�m eclodido na contemporaneidade se constituem em grande desafio de abordagem jornal�stica. No caso espec�fico do Brasil, os ve�culos jornal�sticos de comunica豫o t�m trazido � tona as desigualdades de oportunidades a partir da etnia. No entanto, marcados por contradi寤es, esses ve�culos deixam transparecer, em not�cias publicadas, estere�tipos e um discurso conservador ao mesmo tempo em que s�o importantes canais de den�ncia de discrimina豫o, chamando a aten豫o das autoridades e da popula豫o para diversos problemas.

젨젨젨젨젨� � emergente, tamb�m, a necessidade de inserir nos curr�culos dos cursos Comunica豫o as disciplinas que especializem os alunos em temas que tratem dos grupos minorit�rios, principalmente os conflitos �tnicos e raciais, que v�m definindo e redefinindo o mapa geogr�fico de pa�ses e cidades. Assim como existem jornalistas especializados em Ci�ncias, pol�ticas e outras �reas, � necess�rio formar profissionais especializados em rela寤es raciais e grupos minorizados.

 

Bibliografia

 

1. Obras citadas neste trabalho

 

ARA�JO, Joel Zito. A nega豫o do Brasil: o negro na telenovela brasileira. SP: Senac. 2000.

 

BACCEGA, M.A. & Couceiro, S.M. Manipula豫o e constru豫o da identidade da 햒rica negra na imprensa brasileira. S�o Paulo: ECA-USP, 1992. (mimeogr.).

 

BASTIDE, Roger. 밇stere�tipos de negros atrav�s da literatura brasileira�. In: Boletim de Sociologia. S�o Paulo: FFLCH-USP, 1953. p. 27.

 

COUCEIRO, Solange Martins. O negro na televis�o de S�o Paulo: um estudo de rela寤es raciais. S�o Paulo: FFLCH-USP, 1983.

 

______________________. Mulher e fam�lia negras: realidade e representa豫o na obra de Nina Rodrigues. S�o Paulo, 1984. Tese (Doutorado) - Escola de Comunica寤es e Artes, Universidade de S�o Paulo.

 

DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e hist�rica do Brasil. S�o Paulo: Martins, 1949.

 

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FERRARA, Miriam Nicolau. A imprensa negra paulista (1915-1963). S�o Paulo, 1986. Tese (Doutorado) FFLCH, Universidade de S�o Paulo.

 

FERREIRA, Ricardo Alexino. Olhares negros: estudo da percep豫o cr�tica de afro-descendentes sobre a imprensa e outros meios de comunica豫o. Tese de Doutorado. S�o Paulo: Escola de Comunica寤es e Artes da Universidade de S�o Paulo. 2001.

 

______________________. A representa豫o dos negros em jornais no centen�rio da aboli豫o da escravatura no Brasil. Disserta豫o de Mestrado. S�o Paulo: Escola de Comunica寤es e Artes da Universidade de S�o Paulo. 2001.

 

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PEREIRA, Jo�o Baptista Borges. Cor, profiss�o e mobilidade: o negro e o r�dio de S�o Paulo. S�o Paulo: Pioneira/Edusp, 1967.

 

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SMITH, Anthony D. A identidade nacional. Trad. Cla�dia Brito. Lisboa, Portugal: Gradiva. 1991. p. 97.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Ag�ncias de not�cias s�o empresas jornal�sticas que t�m por objetivo transformar fatos in�ditos em mat�rias jornal�sticas e visam repass�-las para os ve�culos de comunica豫o que, previamente, possuem assinatura dos seus servi�os. Portanto, � um servi�o pago. Elas podem ser classificadas em local/nacional [quando cobrem uma cidade espec�fica ou o pr�prio pa�s. Nesta situa豫o est�o Ag�ncia Estado, Ag�ncia Folhas, Globo e JB];� internacional (quando cobrem um conjunto de� pa�ses de um continente, sem pretens�o de cobrir todo o planeta) e noticiosas [quando visam cobrir todos os continentes. As maiores nestas condi寤es s�o as duas americanas Associated Press (AP) e a United Press International (UPI); a francesa France Press (AFP) e� a inglesa Reuters.) ]

 

[2] O termo 밎rupos minorizados�� tem o sentido conceitual de segmentos sociais que, independente da quantidade, t�m pouca representa豫o social, econ�mica (inser豫o no mercado de trabalho, ocupa豫o de cargos de poder e outros) e pol�tica. Estes grupos, muitas vezes, est�o � margem dos interesses sociais. No entanto, o termo come�ou a provocar confus�o sem�ntica j� que muitas pessoas atribu�am a estes grupos caracter�sticas de serem poucos indiv�duos, o que seria uma incoer�ncia, uma vez que no Brasil, por exemplo, a popula豫o negra corresponde a 44% dos brasileiros e, mesmo assim, este grupo � considerado minorizado. Est�o neste bojo conceitual os negros, os homossexuais, as mulheres, os nordestinos, os portadores de necessidades especiais, os obesos e outros.