REELABORA플O
DO OLHAR: A INSTRUMENTA플O E FORMA플O DO COMUNICADOR NA COBERTURA DAS
DIFERENTES REALIDADES AFRICANAS E DO SEGMENTO AFRO-DESCENDENTE BRASILEIRO, A
PARTIR DO JORNALISMO CIENT�FICO E JORNALISMO ESPECIALIZADO.
RICARDO ALEXINO FERREIRA
O autor Ricardo Alexino Ferreira �
jornalista, doutor em Ci�ncias da Comunica豫o pela Escola de Comunica寤es e
Artes da Universidade de S�o Paulo/USP (Brasil); professor da Faculdade de
Arquitetura, Artes e Comunica豫o da Universidade Estadual Paulista/Unesp (em
Bauru, S�o Paulo, Brasil), ministrando as disciplinas Comunica豫o Cient�fica
(no Programa de P�s-Gradua豫o em Comunica豫o) e Jornalismo Especializado (no
curso de Gradua豫o em Comunica豫o Social, habilita豫o Jornalismo). � tamb�m
diretor e apresentador do programa jornal�stico de entrevistas, voltado para a
divulga豫o cient�fica, Unesp-Ci�ncia,
veiculado pela R�dio Unesp-FM (105,7 Mhz, Bauru, SP e www.radio.unesp.br)� e colunista da coluna M�dias, no site www.tvtem.com.br,
da TVTem.com (Rede Globo de
Televis�o, de Bauru). Coordena o Grupo de Pesquisa Comunica豫o Cient�fica e
Especializada (cadastrado no CNPq e certificado pela Unesp). Contato: alexino@uol.com.br �ou alexino@faac.unesp.br
Resumo
젨젨젨젨젨�
A partir da
d�cada de 90, a imprensa se depara com os in�meros conflitos �tnicos que eclodem
em todo o mundo. Entre o politicamente correto e o estere�tipo,
jornalistas� se v�em perdidos na
cobertura jornal�stica do segmento afro-brasileiro e das diferentes realidades
africanas. A proposta deste trabalho � mostrar como o Jornalismo Cient�fico e o
Jornalismo Especializado podem instrumentalizar e formar o profissional de
imprensa na cobertura dos fen�menos sociais, culturais, pol�ticos e econ�micos
dos segmentos afro-descendentes brasileiros e africanos.
Introdu豫o
O discurso
racial brasileiro, envolvendo a quest�o do negro, � retomado de maneira
diferenciada na �ltima d�cada e tem como gancho os confrontos �tnicos que se
intensificaram em todo o mundo com o fim da Guerra Fria, principalmente no
continente europeu. A quest�o de etnia e ra�a passa a ser a pauta do dia nos
mais diferentes notici�rios. Esse fen�meno acabou por levantar dois elementos
importantes.
Em outro
momento, percebe-se que, ao cobrir conflitos �tnicos no continente europeu
ocidental, as ag�ncias de not�cias passam aos ve�culos de Comunica豫o
abordagens diferentes daquelas elaboradas sobre os젨 conflitos em outros continentes. O conflito europeu �
contextualizado historicamente e ocupa consider�vel espa�o nos meios de
comunica豫o. No entanto, para os conflitos envolvendo os n�o-europeus (Oriente
M�dio, 햒rica, Am�rica Latina e 햟ia) o tratamento � outro, bem como o destaque
dado. Geralmente, as refer�ncias hist�ricas aos conflitos n�o-europeus s�o
escassas e os efeitos dos conflitos minimizados, beirando muitas vezes o
estere�tipo, em que adjetivos como 뱑adicais�, 뱕iolentos� e outros s�o largamente
difundidos.� No caso dos conflitos
�tnicos na 햒rica, o tratamento � o mais diferenciado de todos, pois atribui a
estes conflitos caracter�sticas tribais.
젨젨젨젨젨� Mesmo
com diferen�as de abordagens, esta movimenta豫o internacional acabou
influenciando o discurso nacional sobre a situa豫o �tnica no Brasil. Duas
abordagens s�o percebidas no que tange a este tema. Na primeira, desprovida de
cr�tica e acreditando ser o Brasil um pa�s que vive uma democracia racial
plena, utiliza-se destes conflitos internacionais para alardear o quanto o
brasileiro � pac�fico e democr�tico. Esta corrente � a da nega豫o das
diferen�as �tnicas e� da nega豫o da
exclus�o social a partir 밺a cor�. Por outro lado, os conflitos �tnicos internacionais
t�m provocado discuss�es em camadas mais bem-informadas da popula豫o sobre as
diferen�as �tnicas existentes no Brasil e o quanto isso acaba incidindo sobre a
qualidade de vida e a distribui豫o de renda. Ou seja, neste caso a� desigualdade social n�o � vista apenas pela
�tica da m� distribui豫o de renda e imobilidade de grupos na pir�mide social,
mas a partir da intensa rela豫o que tem entre�
exclus�o social e popula豫o negra, tornando-se poss�vel identificar que
a maioria dos afro-descendentes est� na linha de sobreviv�ncia da Economia brasileira.
Apesar de
o� assunto ter sido retomado, nestes
�ltimos anos, o tema envolvendo conflitos�
�tnicos no Brasil n�o � algo recente. Em 1988, durante os trabalhos da
Constituinte, j� se verificava a necessidade de se elaborar uma nova
Constitui豫o brasileira que fosse intolerante com atos racistas e
discriminat�rios. Reconhecia-se, assim, oficialmente, que o Brasil n�o estava
imerso em nenhuma democracia racial e se tornava necess�rio criar mecanismos
eficientes de coibi豫o de atos racistas. A pr�pria imprensa cria
밿ndexes�,� via manuais de reda豫o,
alertando sobre a forma e o conte�do da abordagem dos grupos minorizados[2].
젨젨젨젨젨�
젨젨젨젨젨� Muitas
vezes, o discurso nacional sobre a quest�o �tnica teve como ponto de partida
press�es internacionais que obrigavam o Brasil a se posicionar� sobre os mais diferentes confrontos, como
foi o caso da luta antiapartheid� na 햒rica do Sul, em 1988, e, uma d�cada
depois, com a quest�o da independ�ncia e autodetermina豫o do Timor Leste. Neste
�ltimo caso, o ent�o presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso foi
pressionado pelo governo portugu�s, em 1999, para se posicionar de maneira mais
efetiva sobre o massacre contra os timorenses promovido pelo governo indon�sio.
A cobran�a do governo portugu�s se calcava�
no fato de� Timor Leste ser um
territ�rio-irm�o do Brasil, n�o s� pelo aspecto do idioma (a l�ngua falada no
Timor Leste � o portugu�s), como tamb�m pelos aspectos socioculturais e� religiosos. Somente nesta situa豫o � que o
Brasil rompeu o sil�ncio e se mobilizou e enviou tropas, que se uniram �s
For�as de Paz da ONU, para garantir a autodetermina豫o daquele povo.
젨젨젨젨젨� Em
muitos momentos, os confrontos �tnicos internacionais serviram para que
discursos pol�ticos exaltassem a democracia racial brasileira contrapondo-a aos
conflitos que se desenhavam em outros pa�ses. Estes argumentos oportunistas, no
entanto, eram imediatamente pulverizados por organiza寤es de direitos humanos e
movimentos populares organizados, que expunham categoricamente a situa豫o dos
grupos minorizados no Brasil.
1.�
Contextualiza豫o hist�rica: �
Conflitos nos anos 90� -� a guerra das etnias
젨젨젨젨젨� O mundo contempor�neo� (principalmente na d�cada de 90) tem젨 sido marcado por diversos conflitos
nacionalistas, �tnicos e religiosos, at� ent�o ofuscados por quase quatro
d�cadas de guerra fria. Estes conflitos se intensificaram na d�cada de 90 com a
queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, e o enfraquecimento dos pa�ses do
ent�o bloco sovi�tico, atolados em crises econ�micas.
A
bipolariza豫o� do mundo p�s-Segunda
Guerra Mundial entre EUA e URSS aos poucos ofusca (mas n�o elimina) os
conflitos �tnicos e separatistas de muitos pa�ses, principalmente na Europa.
젨젨젨젨젨� Ap�s a Segunda Guerra Mundial, a
hegemonia mundial dos Estados Unidos e da URSS leva o nacionalismo a "adormecer"
em muitas na寤es, principalmente na Europa.�
Entender o nacionalismo requer uma reflex�o profunda, uma vez que
envolve complexidades.� Segundo Anthony
Smith, professor de Sociologia na Universidade de Londres e na London School of
Economics, o nacionalismo � um movimento ideol�gico para atingir e conservar a
autonomia, a unidade e a identidade em nome de uma popula豫o em que alguns dos
seus membros consideram constituir uma "na豫o" real ou
potencial.� (Smith: 1991: 97)
젨젨젨젨젨� N�o se pode afirmar que os conflitos
entre brancos e negros no Brasil tenham a mesma dimens�o dos conflitos �tnicos
internacionais. Por ser um pa�s marcadamente mesti�o, o separatismo e os
confrontos diretos se tornam mais dilu�dos, por�m n�o menos graves. Apesar
disso, � poss�vel observar na realidade brasileira a conforma豫o, ainda
embrion�ria, de conflitos �tnicos que podem insurgir de forma mais intensa no
futuro. Este tipo de conforma豫o come�a a ser percebido pelo isolamento e
confinamento da popula豫o negra a alguns espa�os (tanto no �mbito f�sico como
social). Na conforma豫o territorial, a maioria dos negros brasileiros est�
confinada nas favelas, corti�os ou periferias das grandes cidades. Ao sair
deste espa�o, esta popula豫o negra � subjugada pelas for�as auxiliares do governo
(Pol�cia Militar) ou por seguran�as particulares, contratados por empresas ou
pessoas f�sicas, que quase sempre a tomam por 뱈arginal� e como uma amea�a
natural ao patrim�nio, � vida e � manuten豫o do status quo das classes economicamente dominantes ou, at� mesmo, da
classe m�dia (que introjeta os valores dos grupos dominantes). Quando esta
maioria negra n�o � subjugada por estas for�as militares ou de seguran�a
privada, � discriminada por outros elementos sociais, que exercem controle de
acesso de pessoas (como porteiros, selecionadores de vagas de empregos e outros
profissionais), que dificultam o seu acesso a pr�dios, empregos, enfim, ao
pleno exerc�cio da cidadania.
�No �mbito social, a desigualdade de
oportunidades entre brancos e negros tem adquirido visibilidade atrav�s de
pesquisas divulgadas tanto por �rg�os oficiais, como a Funda豫o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estat�stica (IBGE), como por entidades
n�o-governamentais ou institutos de pesquisas ligados �s Universidades. Este �
o caso do Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, que �
formado por entidades representativas dos trabalhadores e desenvolveu estudo
alertando que 50% da popula豫o desempregada em cinco capitais e Distrito
Federal � composta por negros.� (Inspir:
1999: 117)
No
�mbito governamental, os dados tamb�m s�o aterradores.� 밅onforme os �ltimos dados do Instituto de
Pesquisa Econ�mica Aplicada (Ipea), �rg�o do Minist�rio do Planejamento,
estima-se que os negros brasileiros ocupam apenas 1% dos postos estrat�gicos do
mercado de trabalho. A mesma pesquisa revela que, entre dois profissionais
igualmente qualificados, o branco tem 30% mais chances de conseguir a ocupa豫o
do que o negro. Em universidades p�blicas a presen�a do negro � quase �nfima.
Para se ter uma id�ia, a Universidade de S�o Paulo, considerada a mais
importante da Am�rica Latina em ensino e pesquisa, possui 50 mil alunos, mas
apenas 2% s�o alunos negros brasileiros.� � (Ferreira:
outubro de 2000: 8)
젨젨젨젨젨� Estes dados s� fazem entender que o
Brasil � um pa�s que possui acentuada discrep�ncia social e utiliza a cor da
pele para intensificar as diferen�as sociais, uma vez que a maioria da
popula豫o negra se encontra nas camadas menos privilegiadas e arcando com o
�nus da mis�ria social.
젨젨젨젨젨� A discrimina豫o do negro, no
entanto, n�o est� apenas relacionada � sua situa豫o econ�mica desfavorecida,
que marca a maioria da popula豫o afro-descendente. Mesmo quando ascende
socialmente, � poss�vel observar uma acentua豫o da discrimina豫o , uma vez que
este negro saiu do lugar historicamente reservado para ele.
2. A forma豫o e especializa豫o de jornalistas e outros comunicadores na
abordagem de segmentos minorizados
젨젨젨젨젨� Com o t�rmino da Guerra Fria,
conforme exposto anteriormente, os conflitos �tnicos, de g�neros e de inclus�o
social retomaram dimens�es importantes. No Brasil, o fen�meno tamb�m pode ser
observado, principalmente no final dos anos 80.
젨젨젨젨젨� Segmentos como o de
afro-descendentes, de homossexuais, de idosos, de crian�as e adolescentes e
outros precipitaram-se, enquanto informa豫o, nas pautas dos jornais e nas
editorias, obrigando os profissionais de imprensa a uma mudan�a de postura.
젨젨젨젨젨� No, entanto, a complexidade na
abordagem destes segmentos significou um grande desafio para os profissionais
de Comunica豫o. A partir desta realidade, resolvi inserir no programa da
disciplina� Jornalismo Especializado
tem�ticas envolvendo os segmentos minorizados. A experi�ncia vem sendo
realizada junto ao curso de Comunica豫o Social (habilita豫o Jornalismo) da
Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunica豫o da Universidade Estadual Paulista
(Unesp), campus de Bauru, em S�o Paulo.
젨젨젨젨젨� O programa da disciplina �
desenvolvido junto alunos do pen�ltimo termo do curso (7� termo), em Jornalismo
Especializado II. A estrutura da disciplina envolve o conhecimento e o
entendimento dos conflitos no Oriente M�dio, com �nfase em grupos �tnicos
desfavorecidos enquanto not�cia pelas Ag�ncias Noticiosas internacionais; a
realidade de afro-descendentes no Brasil com abordagens social, pol�tica,
econ�mica, hist�rica, cultural, dentre outras; a quest�o homossexual; a quest�o
do idosos; a quest�o da crian�a e do adolescente; a quest�o das mulheres; a
quest�o dos portadores de necessidades especiais.
젨젨젨젨젨� Todos esses segmentos s�o abordados
na disciplina, em um vi�s conceitual e � luz da legisla豫o. S�o estudados os
termos mais apropriados; a constru豫o ideol�gica do preconceito, da
discrimina豫o e do racismo e os diferentes estere�tipos.
젨젨젨젨젨�
3.
Os estudos do negro ou afro-brasileiro e a Comunica豫o
젨젨젨젨젨�
Conforme
pude constatar durante a elabora豫o de minha pesquisa de Mestrado (Ferreira:
1993: 31), estudos sobre o negro e a sua condi豫o de vida, a partir da
representa豫o dele nos meios de comunica豫o social -� a m�dia eletr�nica (r�dio, televis�o), a m�dia imprensa (jornais
e revistas), a m�dia digital (internet) a literatura (ficcional, documental e
cient�fica) e as artes expressivas (m�sica, teatro etc.) - n�o s�o recentes.
젨젨젨젨젨� No s�culo passado, o negro j� esteve
nos relatos de viajantes estrangeiros que vieram ao Brasil como Jean Baptiste
Debret (Debret: 1949) e Saint-Hilaire (Saint-Hilaire: 1953).
젨젨젨젨젨� Gilberto Freyre, um dos primeiros
pesquisadores brasileiros a descobrir a import�ncia informativo-documental da
imprensa, conseguiu reconstruir a representa豫o do negro na sociedade
brasileira no s�culo XIX atrav�s da an�lise dos an�ncios de jornais. (Freyre:
1979)
젨젨젨젨젨� Florestan Fernandes, em Integra豫o do negro � sociedade de classes,
usou como fontes de informa寤es cole寤es de peri�dicos dos fins do s�culo
passado, acreditando ser poss�vel, desse modo, acompanhar alguns assuntos
pol�ticos das camadas dominantes. (Fernandes: 1965)
젨젨젨젨젨� Roger Bastide, em Estere�tipos de negros atrav�s da literatura
brasileira, analisou a produ豫o liter�ria do s�culo XIX, detectando os
estere�tipos raciais na sociedade contempor�nea. "Para este per�odo talvez
o estudo dos jornais seja mais importante do que o dos livros, como express�o
de sentimentos coletivos", afirma. (Bastide: 1953: 27)
젨젨젨젨젨� Borges Pereira, no final da d�cada
de 60, j� havia tecido uma an�lise da presen�a do negro na estrutura
radiof�nica paulista. Com esse trabalho - o primeiro que segue uma linha
metodol�gica do estudo do negro em ve�culo de comunica豫o eletr�nico -, Borges
Pereira, estudando o negro na estrutura radiof�nica, discute as posi寤es e
pap�is que esse segmento ocupa na estrutura social. (Pereira, 1967)
젨젨젨젨젨� Nos anos 70, Solange Couceiro
desenvolve estudo do negro na televis�o paulista. Em sua obra, Couceiro isola o
per�odo final dos anos 60 e o come�o da d�cada de 70. Atrav�s de levantamentos
quantitativo e qualitativo, ela faz an�lise dos profissionais da televis�o
paulista e do conte�do das programa寤es das emissoras (programas de audit�rio e
de entretenimento popular). Esse trabalho, al�m de registrar e documentar os
primeiros passos da televis�o, retoma a metodologia de Borges Pereira e
desenvolve um m�todo de estudo do negro atrav�s da an�lise centrada na
televis�o.� (Couceiro, 1983).
젨젨젨젨젨� Lilia Schwarcz, em levantamento dos
peri�dicos do final do s�culo passado, conseguiu tra�ar um perfil do negro e a
sua representa豫o a partir do discurso das classes dominantes do sistema
escravocrata. Assim, no s�culo passado, segundo a autora,tem-se: o negro
inferior dos editoriais cient�ficos; o negro degenerado e n�o civilizado das
not�cias; o negro fuj�o e marcado dos an�ncios de fuga; o negro desordeiro das
ocorr�ncias policiais; o negro alugado dos classificados; o negro fiel e
dependente de seu senhor; e o negro feiticeiro dos contos de suspense.
(Schwarcz, 1987: 99).
젨젨젨젨젨� Na cr�tica liter�ria, Te�filo de
Queiroz J�nior analisa a literatura brasileira de fic豫o enquanto instrumento
que propaga imagens arcaicas, arcaizantes, deformadas da mulher negra. (Queiroz
J�nior, 1982).
젨젨젨젨젨� No teatro, o trabalho de Miriam
Garcia Mendes faz um levantamento das primeiras pe�as de teatro no Brasil at�
os anos 80 e os pap�is desenvolvidos por atores negros. (Mendes, 1982)
젨젨젨젨젨� Na literatura cient�fica, Solange
Couceiro analisa o discurso de Nina Rodrigues, m�dico-legista que defendia a
inferioridade racial negra atrav�s de explica寤es biol�gicas, logo ap�s a
aboli豫o da escravatura. Esse trabalho � importante referencial para se
entender as origens dos estere�tipos sobre os negros, vigentes at� hoje, e o
comportamento dos meios de comunica豫o social - principalmente jornais que
j�� naquela �poca davam grande destaque
para as mat�rias jornal�sticas e artigos calcados na ci�ncia positivista.
(Couceiro, 1984)
젨젨젨젨젨� Na an�lise do discurso do
jornalismo, Aparecida Baccega e Solange Couceiro estudam o modo que a imprensa
brasileira ainda usa estere�tipos em not�cias sobre o negro. Nesse trabalho, as
pesquisadoras verificaram a cobertura dada pela imprensa ao time de futebol
africano, de Camar�es, durante a Copa do Mundo, em 1990. Elas constataram que o
time e os jogadores africanos eram citados como sendo o s�mbolo animalesco de
coragem e garra ou colocados como guerreiros tribais, numa alus�o a uma 햒rica
selvagem, primitiva e guerreira. (Baccega e Couceiro: 1992)
젨젨젨젨젨� Essa gama de trabalhos consolidou
uma linha de pesquisa nas mais diferentes �reas do conhecimento, que trata de
meios de comunica豫o social e rela寤es raciais, mais precisamente a an�lise da
produ豫o dos ve�culos de comunica豫o sobre o negro.
젨젨젨젨젨� Em 1993, defendi a disserta豫o de
Mestrado A representa豫o do negro em
jornais no centen�rio da aboli豫o da escravatura no Brasil, que visava
analisar o conte�do de mat�rias jornal�sticas que tivessem como enfoque o
negro. (Ferreira, 1993)
젨젨젨젨젨� Outro trabalho que analisa o negro
na Comunica豫o � o de Joel Zito Ara�jo, A
nega豫o do Brasil: o negro na telenovela brasileira, que vai fazer uma
abordagem da representa豫o do negro em telenovelas brasileiras. (Ara�jo, 2000)
젨젨젨젨젨� A produ豫o jornal�stica do negro,
aquela que � elaborada por ele e voltada para outros negros, tamb�m j� foi
motivo de an�lise. Em A imprensa negra
paulista, Miriam Nicolau Ferrara resgata a origem dos movimentos negros
organizados e o decl�nio deles, abordando o per�odo que vai de 1915 a 1963.
Nesse livro, a autora analisa a representa豫o do negro formulada por ele mesmo
em seus pr�prios peri�dicos. (Ferrara,
1986)
젨젨젨젨젨� Nos trabalhos de Florestan
Fernandes, o estudo da imprensa negra possibilitou analisar a fun豫o
socializadora que esses tipos de jornais tinham. Segundo ele, a imprensa negra
condensou e difundiu avalia寤es inconformistas sobre a realidade racial
brasileira; contribuiu para transpor o consenso mec�nico, fundado na identidade
das frustra寤es, numa solidariedade consciente e org�nica.� (Fernandes, 1965) . Roger Bastide tamb�m procurou,
atrav�s da an�lise da imprensa negra, discernir a mentalidade de uma ra�a.
(Bastide, 1953).
젨젨젨젨젨� Os
conflitos �tnicos que t�m eclodido na contemporaneidade se constituem em grande
desafio de abordagem jornal�stica. No caso espec�fico do Brasil, os ve�culos
jornal�sticos de comunica豫o t�m trazido � tona as desigualdades de
oportunidades a partir da etnia. No entanto, marcados por contradi寤es, esses
ve�culos deixam transparecer, em not�cias publicadas, estere�tipos e um
discurso conservador ao mesmo tempo em que s�o importantes canais de den�ncia
de discrimina豫o, chamando a aten豫o das autoridades e da popula豫o para
diversos problemas.
젨젨젨젨젨� � emergente, tamb�m, a necessidade
de inserir nos curr�culos dos cursos Comunica豫o as disciplinas que
especializem os alunos em temas que tratem dos grupos minorit�rios,
principalmente os conflitos �tnicos e raciais, que v�m definindo e redefinindo
o mapa geogr�fico de pa�ses e cidades. Assim como existem jornalistas
especializados em Ci�ncias, pol�ticas e outras �reas, � necess�rio formar
profissionais especializados em rela寤es raciais e grupos minorizados.
1. Obras
citadas neste trabalho
ARA�JO, Joel Zito. A nega豫o do Brasil: o negro na
telenovela brasileira. SP: Senac. 2000.
BACCEGA, M.A. &
Couceiro, S.M. Manipula豫o e constru豫o
da identidade da 햒rica negra na imprensa brasileira. S�o Paulo: ECA-USP,
1992. (mimeogr.).
BASTIDE,
Roger. 밇stere�tipos de negros atrav�s da literatura brasileira�. In: Boletim de Sociologia. S�o Paulo:
FFLCH-USP, 1953. p. 27.
COUCEIRO, Solange Martins. O negro na televis�o de S�o Paulo: um
estudo de rela寤es raciais. S�o Paulo: FFLCH-USP, 1983.
______________________. Mulher e fam�lia negras: realidade e
representa豫o na obra de Nina Rodrigues. S�o Paulo, 1984. Tese (Doutorado) -
Escola de Comunica寤es e Artes, Universidade de S�o Paulo.
DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e hist�rica do Brasil.
S�o Paulo: Martins, 1949.
FERNANDES, Florestan. A integra豫o do negro na sociedade de
classes. S�o Paulo: Dominus, 1965.
FERRARA, Miriam Nicolau. A imprensa negra paulista (1915-1963).
S�o Paulo, 1986. Tese (Doutorado) FFLCH, Universidade de S�o Paulo.
FERREIRA, Ricardo Alexino. Olhares negros: estudo da percep豫o
cr�tica de afro-descendentes sobre a imprensa e outros meios de comunica豫o.
Tese de Doutorado. S�o Paulo: Escola de Comunica寤es e Artes da Universidade de
S�o Paulo. 2001.
______________________.
A representa豫o dos negros em jornais no
centen�rio da aboli豫o da escravatura no Brasil. Disserta豫o de Mestrado.
S�o Paulo: Escola de Comunica寤es e Artes da Universidade de S�o Paulo. 2001.
______________________. 밃s
lutas �tnico-separatistas e a imprensa: o Pa�s Basco em not�cia�. In: �tica & Comunica豫o-Fiam: Revista de
estudos sobre comunica豫o, Jornalismo e propaganda.� SP: Fiam. 2: 19-23, ago./dez. 2000.
______________________.
밆esigualdade racial sem m�scaras�. In: Valor
Fim de Semana, Eu &. SP: Valor Econ�mico. Ano I � n� 25, 20 de outubro
de 2000. Suplemento do Jornal Valor Econ�mico. p. 8-9.�
FREYRE, Gilberto. O escravo nos an�ncios de jornais
brasileiros do s�culo XIX. S�o Paulo: Nacional, 1979.
INSPIR, Instituto Sindical
Interamericano pela Igualdade Racial. Mapa
da popula豫o negra no mercado de trabalho. SP: Inspir/AFL-CIO/Dieese.
Outubro de 1999. p. 117.
MENDES, Miriam Garcia. A personagem negra no teatro brasileiro.
S�o Paulo: 햠ica, 1982.
PEREIRA, Jo�o Baptista
Borges. Cor, profiss�o e mobilidade:
o negro e o r�dio de S�o Paulo. S�o Paulo: Pioneira/Edusp, 1967.
QUEIROZ J�NIOR, Te�filo de. Preconceito de cor e a mulata na literatura
brasileira. S�o Paulo: 햠ica, 1982.
SAINT-HILAIRE, Augusto de. Segunda
viagem a S�o Paulo e quadro hist�rico da prov�ncia de S�o Paulo. S�o
Paulo: Martins, 1953.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Retrato em branco e negro: jornais,
escravos e cidad�os em S�o Paulo no final do s�culo XIX. S�o Paulo: Cia. das
Letras, 1987. p. 99.
SMITH, Anthony D. A identidade nacional. Trad. Cla�dia
Brito. Lisboa, Portugal: Gradiva. 1991. p. 97.
[1] Ag�ncias de not�cias s�o empresas jornal�sticas que t�m por objetivo transformar fatos in�ditos em mat�rias jornal�sticas e visam repass�-las para os ve�culos de comunica豫o que, previamente, possuem assinatura dos seus servi�os. Portanto, � um servi�o pago. Elas podem ser classificadas em local/nacional [quando cobrem uma cidade espec�fica ou o pr�prio pa�s. Nesta situa豫o est�o Ag�ncia Estado, Ag�ncia Folhas, Globo e JB];� internacional (quando cobrem um conjunto de� pa�ses de um continente, sem pretens�o de cobrir todo o planeta) e noticiosas [quando visam cobrir todos os continentes. As maiores nestas condi寤es s�o as duas americanas Associated Press (AP) e a United Press International (UPI); a francesa France Press (AFP) e� a inglesa Reuters.) ]
[2] O termo 밎rupos minorizados�� tem o sentido conceitual de segmentos sociais que, independente da quantidade, t�m pouca representa豫o social, econ�mica (inser豫o no mercado de trabalho, ocupa豫o de cargos de poder e outros) e pol�tica. Estes grupos, muitas vezes, est�o � margem dos interesses sociais. No entanto, o termo come�ou a provocar confus�o sem�ntica j� que muitas pessoas atribu�am a estes grupos caracter�sticas de serem poucos indiv�duos, o que seria uma incoer�ncia, uma vez que no Brasil, por exemplo, a popula豫o negra corresponde a 44% dos brasileiros e, mesmo assim, este grupo � considerado minorizado. Est�o neste bojo conceitual os negros, os homossexuais, as mulheres, os nordestinos, os portadores de necessidades especiais, os obesos e outros.