64ª Reunião Anual da SBPC
C. Ciências Biológicas - 10. Microbiologia - 1. Biologia e Fisiologia dos Microorganismo
EXTRAÇÃO DE RNA VIRAL E DETECÇÃO DE CALICIVÍRUS HUMANOS (SAPOVÍRUS E NOROVÍRUS) POR RT-PCR EM AMOSTRAS FECAIS PROVENIENTES DE CRIANÇAS MENORES DE CINCO ANOS DE IDADE QUE FREQUENTAM CENTROS MUNICIPAIS DE EDUCAÇÃO INFANTIL (CMEIS) EM GOIÂNIA-GO
Hugo César Pereira Santos 1
Vítor Hugo Botacini Borges 1
Ana Maria Tavares Borges 1
Fabíola Souza Fiaccadori 1
Menira Borges de Lima Dias e Souza 2
1. Inst. de Patologia Tropical e Saúde Pública, Universidade Federal de Goiás - UFG
2. Profa. Dra./Orientadora – Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública - UFG
INTRODUÇÃO:
As gastroenterites constituem importante causa de morbidade em humanos, e os calicivírus humanos (HuCVs) são a principal causa de gastroenterite viral epidêmica não-bacteriana, sendo detectados em diversas partes do mundo. Dentre os calicivírus, destacam-se os norovirus e sapovirus que constituem dois dos gêneros da família Caliciviridae. As partículas virais são esféricas, não-envelopadas, com diâmetro de 27 a 32 nm, e seu genoma é composto por RNA fita simples de polaridade positiva. A principal via de transmissão dos HuCVs é a fecal-oral, e os principais sintomas associados a infecção são vômito e diarreia, sendo a desidratação uma complicação frequente.
A excreção assintomática de calicivírus por alguns indivíduos, a elevada carga excretada, a baixa dose infecciosa, os surtos de calicivírus em locais com aglomeração de pessoas e a escassez de estudos envolvendo a sua detecção em crianças frequentadoras de creches reforçam a relevância do trabalho e a necessidade de uma melhor avaliação da importância epidemiológica destes agentes. O objetivo principal do trabalho foi detectar HuCVs (norovírus e sapovírus) em amostras fecais coletadas durante o período de um ano de crianças menores de cinco anos, que freqüentam Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIS) em Goiânia-GO.
METODOLOGIA:
O material de estudo foi constituído de 237 espécimes fecais, obtidos de igual número de crianças menores de cinco anos de idade, sintomáticas ou não, frequentadoras de oito diferentes CMEIs. As amostras foram coletadas no período de Janeiro de 2008 a Março de 2009, mediante assinatura do termo de consentimento em participação no estudo pelos pais ou responsáveis e aprovação pelo comitê de ética da UFG.
As amostras foram primeiramente processadas para a obtenção de uma suspensão fecal a 20% em tampão salina fosfato (PBS) pH 7,4. O RNA fita simples foi extraído a partir destas suspensões, utilizando-se o agente quiomiotrópico (isotiocianato de guanidina) e sílica. A detecção de calicivírus foi feita por RT-PCR, utilizando-se os pares de iniciadores p289/290 (com produto de tamanho esperado de 319 pb para norovírus e 331 pb para os sapovírus) e MON 381/383 (com fragmento amplificado de tamanho esperado de 322 pb para os norovírus). Os produtos de RT-PCR foram submetidos à eletroforese em gel de agarose (1,5%) e visualizados em transluminador (UV) utilizando-se como padrão de tamanho molecular o 100pb DNA ladder. A análise estatística dos dados foi realizada utilizando-se o programa EpInfo versão 6.0. Aplicou-se o teste de qui-quadrado (χ²), com intervalo de confiança de 95%.
RESULTADOS:
Foram encontradas amostras positivas em todos os CMEIs analizados. Do total de 237 amostras fecais, 58 foram positivas para HuCVs, observando-se um índice global de positividade de 24,5% (58/237), semelhante aos índices de positividade reportados por outros estudos realizados no Brasil. Das amostras positivas, 48 foram amplificadas quando utilizado o par de iniciadores MON 381/383, demonstrando uma maior incidência de norovírus na população analisada, o que tem sido também relatado por outros autores.
Quando analisada a presença ou não de diarréia nas crianças, observou-se que os calicivírus podem afetar crianças com e sem diarréia (19,4% e 26,7%, respectivamente), sendo que o maior índice de positividade foi observado entre crianças assintomáticas, corroborando dados mundiais sobre a circulação de calicivírus também entre indivíduos assintomáticos. Houve positividade para HuCVs em todas as faixas etárias, com maior ocorrência entre crianças com mais de 36 meses de idade (p=0,004). Amostras positivas foram encontradas em todos os meses do ano, entretanto observou-se maior positividade nos meses com umidade relativa do ar mais elevada, corroborando estudo anterior que observou uma sazonalidade para os HuCVs durante a estação chuvosa na região Centro-Oeste (BORGES et al., 2006).
CONCLUSÃO:
O RNA dos Calicivírus foi extraído com sucesso, e os dados obtidos no presente estudo demonstram a circulação de HuCVs, com destaque para os NoVs, tanto entre crianças sintomáticas quanto assintomáticas. Os resultados sugerem um possível envolvimento de crianças assintomáticas na transmissão dos HuCVs a indivíduos susceptíveis, destacando a importância do monitoramento de diferentes populações, sintomáticas ou não, como medida de controle e prevenção de surtos epidêmicos, principalmente entre indivíduos que convivam em contato muito próximo ou em ambiente com aglomeração.
Palavras-chave: Calicivírus Humanos, Gastroenterite, Norovírus.