64ª Reunião Anual da SBPC
F. Ciências Sociais Aplicadas - 10. Comunicação - 3. Comunicação Visual
ANÁLISE SEMIÓTICA DE CARTAZES DO CINEMA MARGINAL - Procedimentos e recursos utilizados na construção da mensagem
Bruno Maykot Pucci 1
Regina Cunha Wilke 2
1. Design - Bacharelado em Comunicação Visual - Centro Universitário SENAC - SP
2. Profa. Dra./ Orientadora - Depto. de Design - Comunicação Visual - Centro Universitário SENAC - SP
INTRODUÇÃO:
O artigo apresenta os resultados do projeto de pesquisa "A análise semiótica de cartaz - procedimentos e recursos utilizados na construção da mensagem", que realizou uma investigação sobre a linguagem dos cartazes culturais do Cinema Marginal, movimento de grande efervescência e experimentalismo na produção cinematográfica nacional entre 1968 e 1973, momento de profundas transformações nos movimentos artístico-culturais do Brasil e do mundo. Para análise, foram escolhidos dois cartazes de filmes representativos, entre os vinte e quatro levantados no acervo da Cinemateca Brasileira: "Bang Bang"(1970), de Andrea Tonacci, e "Meteorango Kid - O Herói Intergalático"(1969), de André Luiz Oliveira, com o intuito de estabelecer um diálogo com a linguagem audiovisual e com a produção individual dos autores desses cartazes. A pesquisa compreendeu os processos de representação, comunicação e significação através de análises embasadas na teoria semiótica de Charles S. Peirce. Para tal, foram considerados dois conceitos fundamentais da visão tríadica peircieana: a classificação dos signos em relação ao objeto, relacionando a linguagem audiovisual e a peça gráfica; e a classificação do signo em si, análise do cartaz independente de sua relação com o filme para o qual foi desenvolvido.
METODOLOGIA:
Primeiramente, a pesquisa realizou estudo sobre a produção teórica da semiótica de Charles S. Peirce, estabelecendo parâmetros para a análise do cartaz cinematográfico, através da leitura dos textos de Peirce (PEIRCE, 2003) e de Lucia Santaella (SANTAELLA, 2004). Optamos por apresentar a análise dos signos presentes nos cartazes à partir de duas visões principais da semiótica de Pierce: a classificação do signo em si e em relação ao objeto, compreendendo três níveis de análise, o quali-signo, sin-signo e legi-signo. A pesquisa delimitou e investigou as produções cinematográficas, movimentos culturais e o contexto histórico para posterior recorte dos cartazes a serem selecionados. Como material de análise foram escolhidos os cartazes do movimento Marginal, segundo critérios do pesquisador Fernão Ramos (1984), presentes no acervo da Cinemateca Brasileira, maior acervo de documentos referentes à produção cinematográfica nacional. De um universo de 24 cartazes, a pesquisa fez um recorte para a análise mais criteriosa, selecionando os cartazes de dois filmes representativos. Realizamos a coleta e registro do cartaz através de digitalização, análise da obra audiovisual relacionada com o cartaz e catalogação com o registro das informações e análises em fichas.
RESULTADOS:
No cartaz de “Bang Bang”, realizado pelo próprio diretor Tonacci, podemos observar uma relação maior entre os elementos do signo e do objeto, com a reprodução de cenas do longa no cartaz através da fotografia e técnicas de fotomontagem. Além disso, a estética e a estrutura de ambos dialogam: a fragmentação e o caráter explosivo, pulsante e múltiplo. Na análise do signo em si, o alto-contraste, os planos na composição e a função onomatopéica do título destacam-se. Os principais paradigmas observados são o uso da fotografia e do próprio gênero do filme, uma sátira de filmes policiais norte-americanos. Já no cartaz de "Meteorango Kid", feito pelo designer Rogério Duarte, fica mais explicito sua relação com os paradigmas gráficos e artísticos da época, em dtrimento a um diálogo mais fiel com a estrutura e enredo do filme de Oliveira. O cartaz se relaciona com o filme fundamentalmente a partir da relação do personagem principal com as drogas e o universo psicodélico. Elementos reincidentes na produção, como cartazes psicodélicos presentes em um das primeiras cenas do longa, reforçam essa relação. Já na análise do signo em si, destacam-se o uso de cores complementares, a simetria das massas da composição e o uso de uma forma geodésica, referindo ao "herói intergalático".
CONCLUSÃO:
Analisar o conteúdo funcional, estético e cultural à partir da semiótica de Peirce é um exercício prolífico e de fundamental importância para o entendimento mais amplo de uma determinada produção, partindo do pressuposto que o design precisa ser compreendido de modo integrado, como uma faceta do fenômeno maior da Cultura, no sentido antropológico desse termo. As análises dos cartazes tem a função de compor uma teia de referências que criam um panorama mais rico do design de cartazes para estudos em design gráfico no Brasil. À partir da comparação de um cartaz realizado por um designer renomado, caso de "Meteorango" (Rogério Duarte), e outro criado pelo próprio autor do filme, "Bang Bang" (Andrea Tonacci), analisamos dois processos e técnicas distintas na criação da peça gráfica e de interpretação e tradução dos paradigmas e significados do filme. As análises, de modo geral, nos permitiram criar um amplo painel do processo de representação, comunicação e significação dos cartazes analizados. O aprofundamento da percepção de uma peça gráfica para além de sua forma e função nos permite estabelecer inúmeras camadas de informações que ampliam nossa compreenssão estética e cognitiva sobre uma obra e o universo no qual ele está inserido.
Palavras-chave: cartaz, semiótica, Cinema Marginal.