4/1/2010 - Morreu em São Paulo, no último dia 2, o físico Oscar Sala. Vítima de uma parada cardíaca, Sala tinha 87 anos e vinha lutando contra as sequelas de um acidente vascular cerebral (AVC) que o deixou com dificuldades para falar e se locomover. Ele morreu enquanto dormia, e foi cremado no dia seguinte, também na cidade de São Paulo.
Professor emérito do Instituto de Física (IF) da Universidade de São Paulo (USP), Sala foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (1968-1971), da SBPC (1973-1979), da Associação Interciência das Américas (1975-1979) e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (1985-1987).
Como presidente da SBPC, ele desempenhou um papel fundamental na defesa dos interesses da comunidade científica e dos princípios da democracia. “Ele foi uma liderança fundamental para a SBPC, numa época de muitos conflitos entre a comunidade científica e a ditadura. Sua postura era moderada, porém sempre firme em defesa dos princípios da democracia”, afirmou o atual presidente da entidade, Marco Antonio Raupp.
Para o professor titular de Genética e Evolução da USP, Luiz Edmundo de Magalhães, que foi secretário geral da SBPC em duas gestões de Sala, “ele era uma fortaleza que nunca cedeu às pressões de nenhum governo ou político”. Magalhães conta que Sala era muito respeitado pelo governo do presidente Ernesto Geisel. “Graças ao seu equilíbrio e serenidade, a SBPC foi o único fórum livre de debate durante o período da repressão, e podíamos fazer nossas reuniões com relativa liberdade, sem sermos importunados”, lembra Magalhães. “Ele era um bastião de resistência; uma das pessoas mais dignas que conheci e absolutamente impecável do ponto de vista ético”, resumiu.
Sala nasceu em Milão, em 26 de março de 1922, e veio ao Brasil aos 2 anos. Graduou-se em Física em 1943 na recém criada Universidade de São Paulo. Foi contemporâneo de uma geração de jovens brilhantes físicos brasileiros tais como César Lattes, José Leite Lopes, Mário Schenberg, Roberto Salmeron, Marcelo Damy de Souza Santos, Jayme Tiomno e Mario Alves Guimarães.
Logo após sua graduação, foi contratado como professor assistente na cadeira de Física Geral e Experimental, liderada pelo professor Marcelo Damy de Souza Santos. Ele passou sua carreira inteira como cientista e professor na mesma instituição, a qual, mais tarde se tornaria o Instituto de Física da USP.
Em 1946, Sala recebeu uma bolsa de estudos da Fundação Rockefeller e foi estudar nos Estados Unidos, primeiro na Universidade de Illinois e depois, em 1948, na Universidade de Wisconsin. Lá, ele participou no desenvolvimento de aceleradores eletrostáticos usados no estudo de física nuclear, o primeiro equipamento a usar pulsos de raios para o estudo de reações nucleares com neutrons rápidos. Após seu retorno ao Brasil, Sala foi responsável por instalar e coordenar pesquisas baseadas em grandes geradores eletrostáticos de Van de Graaff. Mais tarde, ajudou na construção de um pelletron (Acelerador eletrostático de partículas) na USP, o primeiro na América Latina.
A construção e organização de laboratórios experimentais de pesquisas em física nuclear, desde o final dos anos de 1940, foi uma atividade constante em praticamente toda vida profissional de Sala. Para ele, os laboratórios eram centros de inovação da tecnologia do país, e, portanto, núcleos de inserção da pesquisa científica nos setores produtivos. Assim, manteve contato estreito com empresas e indústrias, aproveitando o conhecimento disponível para aprimirá-lo.
Em todas as entidades onde atuou deixou contribuições significativas, mesmo quando não estava à frente da presidência. Em 1969, quando a Fapesp foi atingida pelo Ato Inconstitucional nº 5, atendeu o chamado de Ulhoa Cintra, reitor da USP e presidente do Conselho da Fundação, e assumiu a diretoria científica no sentido de garantir a continuidade da Fapesp. Sala entranhou-se à estrutura da Fundação e passou por vários cargos.
De acordo com uma matéria publicada no site da agência, foi nessa época que Conselho Superior da Fapesp decidiu apoiar projetos de grande porte, aprovando o plano de Sala, de destinar 30% do total da verba de amparo à pesquisa ao custeio de projetos através dos quais possam ser resolvidos ou bem equacionados importantes problemas de determinadas áreas.
No ano seguinte, como resultado do Plano para Desenvolvimento da Bioquímica na Cidade de São Paulo, entra em operação o Bioq-Fapesp, com 14 projetos científicos e investimento inicial de US$ 1 milhão, previsto para três anos. “Na época, eu era assistente do professor Francisco Lara, que apresentou a proposta para Sala. Ele, por sua vez, bancou o projeto que transformou a bioquímica em uma das áreas de pesquisa mais ativas do Estado de São Paulo”, lembra Hugo Aguirre Armelin, hoje professor titular do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da USP.
Entre outras distinções, Sala recebeu a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (1994), a Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Bauru, cidade onde morou (1950), a Medalha Jubileu de Prata da SBPC (1973), a Medalha Jubileu do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (1981), a medalha Carneiro Felipe da Comissão Nacional de Energia Nuclear (1987) e o prêmio Moinho Santista de Física (1981).